Quarta-feira, 13 de Julho de 2011

Já não sei quem sou

São muitos os anos que já conto. Para o ano, se lá chegar, serão 90. Começo a esquecer-me de muita coisa que, uns anos (não muitos) antes, eram prioridades absolutas na minha vida. Como o aniversário das filhas e dos netos. Tinha uma lista com os nomes e as datas. Quase um mês antes, já tinha comprado um postal de parabéns para enviar com uma nota dentro, aos que estavam mais longe, porque os que moravam mais perto, recebiam uma prenda para o enxoval. Agora, esqueço-me das coisas. Pergunto muitas vezes, sem me lembrar que perguntei. E dão-me a resposta, sem que me lembre que já a ouvi.

 

O mundo já não faz muito sentido para mim. É tudo muito diferente. Os jovens partem para a vida deles e os mais velhos vão ficando. Eu fiquei.

 

Os dias vão-se arrastando, lentamente, muito lentamente, porque não tenho os horários a cumprir que tornam os mais novos nervosos e atarefados. Andam sempre a correr de um lado para o outro. O tempo parece que nunca lhes chega. A mim, sobra-me.

Os meus dias são passados entre a vinda à varanda e as idas ao quintal. São dias "de ano". Longos e solitários. Mantenho as minhas rotinas, mas são rotinas muito limitadas. Limitadas pela fragilidade que se instala, mais e mais, à medida que os anos passam.

Mas lembro-me bem do tempo em que andava quilómetros. Que trabalhava de manhã à noite. Que lia e fazia renda. Que conversava com as vizinhas e ia à loja e à missa. Agora, não saio de casa. Também já não cozinho.

 

Espero. Tudo quanto faço é esperar. As filhas que estão longe e não vêm. Os netos que não me visitam. Mal começa a tarde, espero o anoitecer. Depois, sozinha na noite, espero o amanhecer. Espero, debruçada na varanda, com uma manta de lã para proteger os meus braços do varão, que alguém passe na rua. É uma rua deserta. Cheia de casas, mas vazia de gente. Aqueles que conhecia, gente da minha idade, partiram. Prefiro dizer partiram que morreram. Restam os casais mais jovens, ainda assim, pouco jovens. Estão nas suas vidas. Toda a gente tem uma vida. Eu tenho uma vida vazia de espera.

 

Deixei de ouvir. Há já muito tempo que andava a ouvir mal. Ia-se agravando, até que deixei mesmo de ouvir. Não sei usar o telefone, mas também não o poderia ouvir, por isso não tenho. Os recados dão-mos num bilhete escrito, mas até esses já tenho dificuldade em compreender. Justificam ausências de visitas, porque têm muitas reuniões. Também já vejo mal. Gastei a vista a fazer renda. Trabalhos de renda em fios delicados. Toalhas, colchas, napperons. Gostava muito de ler o jornal e livros de mistério. Ainda leio, mas nem a vista ajuda, nem as minhas costas permitem estar muito tempo sentada. Sento-me lá fora, na varanda, para ver se vejo alguém. Depois, levanto-me porque não aguento muito tempo na cadeira. E é debruçada na varanda que costumo passar mais tempo. À hora do almoço vejo as "notícias". Estou a par da actualidade porque leio os rodapés. Quando a informação não é suficiente, deduzo as coisas. Nem sempre da forma correcta. por isso se geram tantos mal-entendidos.

Vejo que há notícias de muitos velhinhos tão sozinhos como eu. Alguns são mal-tratados. Até lhes batem! Outros são esquecidos pela família e ficam entregues a eles mesmos e à força que os abandona. Como a família.

 

Lembro-me bem de tudo o que passou. Não deste passado recente, mas do passado mais longínquo. De quando se falava com assombro de que ia haver uma caixa em que se via as pessoas lá dentro. Era a televisão, mas naquele tempo era uma coisa esquisita, mal compreendida e que pouca gente teve. Pela televisão vejo o mal que vai no mundo. É o que me liga a ele e às pessoas que não conheço, mas que me inspiram verdadeiros sentimentos de amizade ou de ódio, consoante a sua acção. Há mortes que lamento muito. Choro como se fosse da minha família ou um amigo íntimo. Não me conheciam, mas eu conhecia-os a eles. Tenho-os acompanhado desde sempre.

 

A vida lá fora terminou, quando terminou a força nas pernas para andar. Já caí algumas vezes. Umas com menos consequências, outras com feridas grandes, braços e pés partidos. Por isso, agora apenas me arrasto devagar até à minha varanda. E aí continu a esperar as visitas que não chegam.

As poucas vezes que tenho alguém para me ouvir, falo de mim, de como era jovem e bonita. Mas falo também da vida difícil de trabalho que tive. Viúva, com filhas pequenas, tive de fazer papel de mãe e de pai e trabalhar para que nunca lhes faltasse nada.

Como gosto de partilhar as recordações que insistem em ficar.... Era muito linda. Chamavam-me a "Miss da terra". Agora olho para mim e já não sei quem sou. Sou um monte de ossos em forma de esqueleto curvado com carnes flácidas e secas. Mal me tocam faço logo um hematona. Não tinha rugas, antes uma pele de seda clara. Olhos grandes, cabelo escuro. Eu era a "Rosa do Tejo". Caminhava ligeira. Agora vejo-me deformada, com passinhos hesitantes e inseguros.

Quando era nova e uma jovem casadoira, os bailes faziam-se com uma concertina. Tocava-se e dançava-se, lá na Sociedade. Dançava muito bem. E por ser tão bonita, muitos me dedicavam poemas e canções. Hei-he contar-vos alguns.

Agora, passo a vida a queixar-me de tudo. Os joelhos que me doem, os braços que já não estico, a digestão que não se faz. Falo de Santos e de experiências estranhas que acontecem durante a noite. Como sentir uma mão delicada e suave no meu braço, ou o peso de alguém ao sentar-se na cama. Acho que é a minha querida netinha que eu ajudei a criar e que morreu muito jovem. A minha menina. Todos os dias rezo um terço pela sua alma e a ela por mim. Que se lembre de mim. Que me apareça em sonhos. Que me mate as saudades que tenho dela. Guardo num maço atado com um laço cor-de-rosa, as cartas que me enviava. Entrou cá em casa num Domingo, Dia da Mãe e nunca mais a voltei a ver, a não ser quando estava no caixão, tão bonita que era impossível acreditar que estivesse morta.

 

Sou um fardo para os outros. As minhas filhas só cá vêm de tempos a tempos. Os meus netos, esse nunca vêm. E eu vivo a contar os dias que faltam para o Natal ou para os meu aniversário, quando, depois de muito ralharem entre eles, me vêm buscar na véspera do Natal e pôr no dia seguinte. Entre estes dias e todos os outros do ano, vivo sozinha, mas a esperança de ter visitas não se acaba.

 

Tenho uma palavra para isto. Vivo abandonada. Abandonada à sorte, até que chegue o momento em que deixarei de ser motivo de preocupação.

 

Era linda. Tinha um vestido de chiffon rosa que vestia para ir aos bailes. Dançava toda a noite.

Agora danço, em recordações que se vão esfumando, como nevoeiro difuso que o sol afasta.

 

Já não sei quem sou. Já não tenho ninguém, porque ninguém tem paciência para mim. Sei que não deve ser fácil, mas queria tanto, mas tanto uns minutos, de vez em quando da presença dos meus filhos e dos meus netos que me enchem de orgulho, sem me cansar de repetir que são doutores e engenheiros.

Não gosto de me sentir velha. Mas sei que o sou. Não gosto de me sentir sozinha. Mas sei que estou.

E amanhã, tal como hoje, comerei meio pão ensopado em leite e passarei o dia na varanda olhando as gentes que não passam. Solidão, solidão, solidão, porque vieste ao meu encontro?

Vou ensinar uma oração que a minha mãe Leopoldina rezava, é assim (tenho pena que as coisas bonitas daquele tempo se percam):

 

 

Pai Nosso pequenino

Quando Deus era menino

Tanto sangue lhe corria pelos pés, pelas mãos

Lá vai Santa Maria Madalena com a toalha na mão, para limpar o Senhor.

"Não me limpes Madalena! Isto são as 5 chagas que por mim hã-de passar;

Cruz na fronte, cruz no monte, o Demónio não me encontre

nem de dia, nem de noite, nem ao pé do meio-dia,
Já os galos cantam, cantam

Já os anjos se levantam

Já DEus subiu à cruz

Para sempre,

Ámen Jesus! 


 

Que lugar têm os velhos na nossa vida?  

 

 

Eu chamo-me Celeste. Nínguém me espera, mas o céu espera por mim....


Desabafos de alemvirtual às 22:45
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1 comentário:
De Sara a 21 de Agosto de 2012 às 16:14
Este post é simplesmente arrepiante, de tão verdadeiro na descrição da sociedade de hoje... sem palavras...


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